O chefe da comunicação da Polícia Militar de São Paulo, coronel Emerson Massera, afirmou nesta sexta-feira (11) que mortes de vítimas desarmadas e rendidas por policiais não ocorrem por falta de treinamento. Segundo ele, os PMs envolvidos têm consciência de que essas ações são ilegais.
Massera comentava a prisão em flagrante de dois policiais pela morte de um suspeito já rendido, com as mãos na cabeça, na tarde de quinta-feira (10) em Paraisópolis, zona sul de São Paulo. O assassinato foi registrado por câmeras corporais usadas pelos policiais.
“Os policiais que cometeram erros sabiam que estavam cometendo erros e optaram por isso”, disse o coronel. Ele destacou que o treinamento é constante ao longo da carreira. “A falta de treinamento não pode ser alegada para justificar ações dolosas [com intenção]”, completou.

Novo modelo de câmera corporal usado pela Polícia Militar de São Paulo; imagens captaram morte de suspeito rendido em Paraisópolis, segundo corporação – Paulo Pinto – 11.jun.25/Agência Brasil
A vítima, Igor Oliveira de Moraes Santos, 24 anos, era suspeito de tráfico de drogas, segundo a PM. Ele estava com outros três homens que fugiram ao ver a polícia e se abrigaram numa casa da comunidade. Imagens das câmeras corporais teriam mostrado Igor sendo atingido por tiros de espingarda e pistola, mesmo sem oferecer perigo.
A morte gerou uma onda de protestos e vandalismo na noite de quinta-feira. Moradores atearam fogo em pneus e pedaços de madeira, viraram carros e fecharam ruas em Paraisópolis. O tumulto foi seguido por uma nova operação, que resultou na morte de outro homem e deixou um policial da Rota ferido.
Ao comentar as prisões, Massera ressaltou que discursos de autoridades, como governadores e secretários, impactam diretamente o comportamento da tropa. Ele citou as declarações do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) sobre a necessidade de cuidado com a mensagem transmitida à base policial.
“O governador foi muito feliz ao dizer que o discurso precisa ser bem direcionado. Caso contrário, a mensagem pode ser interpretada de forma equivocada pelo policial”, disse Massera.
Em dezembro passado, Tarcísio reconheceu que seu discurso “tem peso” sobre a PM e admitiu ter errado ao criticar o uso de câmeras corporais no início de seu mandato. Na mesma época, disse estar “completamente errado” sobre o tema e reforçou a importância dos equipamentos.
Antes disso, porém, o governador havia defendido operações policiais mesmo com denúncias de abusos. Em março do ano passado, por exemplo, Tarcísio afirmou que não estava “nem aí” para denúncias feitas à ONU sobre a Operação Verão, apesar do breve período sem mortes na ocasião. Logo após suas falas, as mortes voltaram a ocorrer.
Massera destacou que as imagens da morte em Paraisópolis foram captadas pelos novos modelos de câmeras corporais, que possuem acionamento automático por bluetooth. Quando um equipamento é ligado manualmente, todos os dispositivos num raio de 20 metros são ativados.
Segundo o coronel, há expectativa de redução da letalidade nos próximos meses. O ouvidor das polícias, Mauro Caseri, reforçou a necessidade de uso de câmeras em toda a PM e sugeriu ampliar o uso de armamentos não letais, como pistolas elétricas e sprays de pimenta.
Caseri também apontou a urgência em discutir as condições de trabalho e a saúde mental dos policiais. “No ano de 2024, mais de 800 pessoas morreram em operações da PM em SP, um aumento de 63%. Não é apenas um problema de formação ou comando”, disse o ouvidor. Ele criticou os baixos salários e defendeu maior participação da sociedade no debate sobre segurança pública.
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