O batalhão da Polícia Militar responsável pela morte de um homem já rendido, com as mãos levantadas, em Paraisópolis, na quinta-feira (10), é o que mais matou em todo o estado de São Paulo na última década. A ação resultou em protestos violentos que deixaram mais um morto e um policial ferido na comunidade da zona sul.
Trata-se do 16º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano (16º BPM/M), que atua na área onde fica Paraisópolis, a maior favela da capital. Segundo estudo da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e da Defensoria Pública estadual, baseado em dados oficiais, policiais desse batalhão foram responsáveis por 337 mortes em intervenções de 2013 a 2023.
O levantamento aponta que uma em cada dez mortes causadas pela PM na capital ocorreu na área do 16º BPM/M. Em 2024, o número continuou elevado, com 43 mortes no ano passado e outras sete até maio deste ano. A área abrange bairros como Morumbi, Campo Limpo, Vila Sônia e Jardim Arpoador, que concentram tanto favelas quanto áreas de alto padrão.

No período analisado, o estado foi governado por Geraldo Alckmin (PSB), Márcio França (PSB), João Doria (sem partido), Rodrigo Garcia (sem partido) e Tarcísio de Freitas (Republicanos). Dois PMs do 16º BPM/M foram presos em flagrante pela morte de Igor Oliveira de Moraes Santos, 24, atingido por tiros mesmo rendido, conforme mostraram câmeras corporais.
O estudo aponta que o número de mortes é diretamente proporcional à vulnerabilidade social nas áreas de atuação. Para comparação, no mesmo período, o 4º BPM/M —responsável pela região da Lapa, Perdizes e Pompeia— teve 50 mortes, sob o mesmo comando metropolitano.
Os pesquisadores ressaltam que, embora a análise considere as áreas de cada batalhão, em alguns casos policiais de outras unidades participam de operações especiais e podem se envolver em mortes. Desde o ano passado, a presença da PM em Paraisópolis foi ampliada, com a área sendo considerada estratégica para o crime organizado.
Em coletiva na sexta-feira (11), o coronel Emerson Massera, chefe de comunicação da PM, afirmou que a região funciona como “entreposto” do tráfico na capital. Moradores ouvidos pela Folha relataram que a violência policial é frequente, e todos sabiam que o 16º batalhão era o mais letal.
Na sexta-feira, além das viaturas locais, equipes de outras zonas de São Paulo patrulhavam os arredores. O helicóptero Águia 22 sobrevoou a comunidade, enquanto motos da Rocam e policiais do Choque e COE circulavam. Apesar do reforço, o ambiente interno era de aparente calma.
Casos de violência policial se repetem na comunidade. Em abril de 2023, um menino de 7 anos ficou cego de um olho após ser ferido no rosto enquanto ia à escola. Pouco antes, um homem morreu ao reagir a uma abordagem da Rota. Em janeiro, um tenente da PM foi baleado em serviço, e um suspeito também ficou ferido.
Segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP), a operação permanente batizada de Impacto Paz e Proteção prendeu 255 suspeitos, apreendeu 46 armas de fogo e retirou 2,3 toneladas de drogas das ruas. A pasta informou redução de crimes violentos, como roubos e homicídios, na área do 89º DP.
Em nota, a SSP disse que todas as mortes em intervenções policiais são investigadas e que não tolera desvios de conduta. “Quando há indícios de irregularidade, os responsáveis são punidos, como ocorreu em Paraisópolis”, afirmou. O governo diz investir em políticas para reduzir a letalidade.
Mesmo com a prisão dos policiais, a PM garantiu que continuará atuando na comunidade. O coronel Allan Marques Bueno, do CPA/M-5, afirmou que o crime organizado tenta expulsar a polícia da região. “Nós não vamos recuar. Vamos continuar operando no combate ao crime”, disse o oficial.
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