O “Mão Santa” faleceu nesta sexta-feira em Santana de Parnaíba após sofrer uma parada cardiorrespiratória; astro lutava contra o câncer desde 2011
Oscar Schmidt, considerado um dos maiores nomes da história do basquete brasileiro, morreu hoje aos 68 anos. Oscar morreu hoje, após dar entrada na manhã desta sexta-feira no Hospital e Maternidade Municipal Santa Ana (HMSA), em Santana de Parnaíba (SP), em parada cardiorrespiratória. Ele deixa a esposa, Maria Cristina, e dois filhos, Filipe e Stephanie.
A precisão nos arremessos, que lhe rendeu o apelido de “Mão santa”, não foi a única marca registrada de um atleta que ficou conhecido pelo amor e dedicação ao esporte. Ele, inclusive, rebatia a alcunha e fazia questão de afastar a força divina dos ‘milagres’ que fazia em quadra: “Não existe mão santa, existe mão treinada”, costumava dizer.
Por treino ou vontade celestial, a verdade é que Oscar se tornou eterno e, não à toa, integra o Hall da Fama do Basquete — Naismith Memorial —, da Federação Internacional de Basquete e do Comitê Olímpico do Brasil. Ele também foi selecionado para a lista de 100 maiores de todos os tempos. Graças a ele, nas quadras brasileiras, a camisa 14 — número usado em homenagem ao dia em que pediu Cris, sua esposa, em namoro — ganhou significado e passou a ser sinônimo de craque.
Recorde olímpico e brasileiro
Oscar disputou cinco edições consecutivas dos Jogos Olímpicos — Moscou-1980, Los Angeles-1984, Seul-1988, Barcelona-1992 e Atlanta-1996 —, e fez 1.093 pontos, marca até hoje não alcançada por qualquer outro atleta da modalidade. Ele também é o maior cestinha da seleção brasileira, com 7.693 pontos.
O título e o choro
Um dos títulos de maior destaque do esporte brasileiro, sem dúvida, é o do basquete nos Jogos Pan-Americanos de 1987, em Indianápolis, nos Estados Unidos. A seleção comandada por Ary Vidal tinha Oscar como um dos líderes, e contava com nomes como Marcel, Israel, Gerson e Pipoka.
O time verde e amarelo bateu os donos da casa, considerados os soberanos da modalidade, na final por 120 a 115, com nada menos que 46 pontos do “Mão Santa”. Ao fim do jogo, com a medalha de ouro assegurada, o ala-pivô se deitou na quadra e, com as mãos, tapou as lágrimas que rolavam pelo rosto. A cena se tornou notável e é constantemente usada para representar momentos do esporte do país.
‘Não’ à NBA pelo Brasil
Um capítulo importante protagonizado por Oscar foi a recusa à NBA, liga de basquete dos Estados Unidos, para continuar defendendo a seleção brasileira. Após os Jogos de Los Angeles-1984, ele foi draftado pelo New Jersey Nets — hoje Brooklyn Nets —, como a 131ª escolha, o que não lhe daria contrato garantido.
Depois dos Jogos Pan-Americanos de 1987, em Indianápolis, quando o Brasil bateu os Estados Unidos na final, surgiu uma nova chance. Havia um movimento na imprensa esportiva norte-americana com a ideia de que ele pudesse defender o recém-criado Miami Heat. À época, porém, uma regra da federação internacional de Basquete (FIBA) impedia atletas que atuassem na liga norte-americana de defender as seleções dos países, motivos que teve grande peso na decisão do “Mão Santa”.
“Foi uma decisão que eu nunca mudaria. Foi a decisão mais fácil que já tomei na minha vida. Jogar pela seleção é a coisa mais nobre que existe, é diferente. É representar um país inteiro, e isso é muito melhor do que jogar na NBA”, afirmou Oscar à EFE, em 2019.
“Na NBA, você volta rico, mas na seleção você será famoso, e as pessoas tiram o chapéu para você. Isso não tem preço. Eu jogava de graça. Eu terminava a temporada inteira na Itália e vinha para seleção para jogar de graça”, ressaltou. “Tive propostas, mas preferi não jogar na NBA. O fato de jogar na NBA não significa que o jogador que está lá seja um fenômeno, porque há jogadores péssimos na NBA. É uma pena, porque o que mais motiva é a NBA e, na minha época, tive que escolher”, completou.
Em 2017, Oscar pisou em quadra em um jogo da NBA. Ele recebeu uma homenagem do Brooklyn Nets e participou do jogo das celebridades no All-Star Game, em Nova Orleans.
Câncer no cérebro
Oscar foi diagnosticado com câncer no cérebro em 2011 e, em 2022, anunciou ter vencido a “batalha” contra a doença. “Ter curado o câncer para mim foi um negócio de outro planeta”, afirmou em entrevista ao Alt Tabet, no Canal UOL, em 2024.
O ex-jogador de basquete contou como uma entrevista ao jornalista Roberto Cabrini o ajudou, após ser “morto” pela imprensa devido ao câncer. “Ele chegou lá em casa para fazer a matéria da vida dele, eu falei: ‘Cabrini, olha para mim, veja se eu estou doente. Não estou doente’. Ele falou: ‘É, você não está doente’. Ele ficou o dia todo lá em casa e me salvou”.
O “Mão Santa” também lembrou um episódio com o Papa Francisco, durante a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro, em 2013. “O papa me ajudou bastante. Ele veio ao Brasil, o governo do Rio me colocou dentro do Palácio com outras famílias [para conhecê-lo]. Ele botou a mão na minha cabeça e falou ‘considere-se abençoado’. Tenho minhas crenças e o papa estava ali, eu olhando no olho dele, foi um dos melhores momentos que tive na vida”, disse Oscar.
Passagem pela Itália e recorde no Brasil
Oscar nasceu no dia 16 de fevereiro de 1958, na cidade de Natal, Rio Grande do Norte. Na infância, a predileção era pelo futebol. O interesse pelo basquete surgiu após a mudança para Brasília, por influência de Zezão — seu técnico no Salesiano, que o incentivou, aos 13 anos de idade a procurar o Clube Unidade da Vizinhança, que era treinado por Laurindo Miura.
Em 1974, aos 16 anos, Oscar mudou-se para São Paulo para iniciar sua carreira no infanto-juvenil do Palmeiras. Com boas atuações, foi convocado para a seleção juvenil de basquete; em 1977, foi eleito melhor pivô do sul-americano juvenil e, com isso, garantiu vaga na seleção principal. No ano seguinte, foi campeão sul-americano e ganhou uma medalha de bronze no Campeonato Mundial das Filipinas.
O técnico Cláudio Mortari levou o jovem para o Sírio, onde conquistou, em 1979, a Copa William Jones, o Mundial Interclubes de basquete. Em 1980, disputou a primeira Olimpíada, em Moscou. Em 1982, Oscar chegou à Itália, onde jogou por 11 temporadas, com passagem por dois clubes: foram oito pelo Juvecaserta e três pelo Pavia. Durante este período, foram 13.957 pontos, que fizeram com que ele se tornasse o primeiro jogador a ultrapassar a marca de 10 mil pontos no Campeonato Italiano.
O ala-pivô se transferiu para o Fórum, de Valladolid, na Espanha, em 1993, onde ficou até 1995 antes de retornar ao Brasil. Oscar conquistou o oitavo brasileiro da carreira pelo Corinthians, em 1996. Ainda defendeu o Banco Bandeirantes, entre 1997 e 1998, Mackenzie, entre 1998 e 1999, e Flamengo, entre 1999 e 2003. Foi vestindo Rubro-Negro que se tornou na ocasião o maior cestinha da história do basquete, com 49.737 pontos, posto que pertencia a Kareem Abdul-Jabbar, com 46.725 pontos. Em 2024, LeBron James superou a marca. O brasileiro se aposentou das quadras em 2003.
🏆 Galeria de Títulos: O Legado de Oscar Schmidt
Seleção Brasileira
-
3x Sul-americano
-
2x Copa América
-
1x Jogos Pan-americanos (Indianápolis 1987)
-
2x Vice Sul-americano
Sírio
-
1x Mundial Interclubes (1979)
-
1x Sul-americano de Clubes
-
1x Campeonato Brasileiro
-
1x Campeonato Paulista
Palmeiras
-
1x Campeonato Brasileiro
-
2x Campeonato Paulista (Juvenil/Principal)
Corinthians
-
1x Campeonato Brasileiro (1996)
Flamengo
-
2x Campeonato Carioca
Internacional (Itália/Espanha)
-
2x Promoções (Itália)
-
1x Copa Itália
-
Recordista: Primeiro a passar de 10 mil pontos no Campeonato Italiano.
Descubra mais sobre Nitro News Brasil
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

