Fundador do império Turner Broadcasting e ex-dono do Atlanta Braves faleceu nesta quarta-feira (6); empresário sofria de demência por corpos de Lewy.

O mundo da comunicação perdeu um de seus maiores ícones nesta quarta-feira (6). Ted Turner, o audacioso esportista e empresário cuja ambição e instinto o levaram a construir um império midiático sem precedentes, incluindo a inovadora rede de notícias CNN, morreu aos 87 anos. A informação foi confirmada pela própria CNN, citando um comunicado oficial da Turner Enterprises.
Até o momento, a causa exata da morte não foi divulgada pela família ou por seus porta-vozes. Turner enfrentava desafios de saúde há anos; em setembro de 2018, ele revelou publicamente que havia sido diagnosticado com demência por corpos de Lewy, uma doença neurodegenerativa que afeta as funções cognitivas e motoras.
A personalidade de Turner era tão grande que um único apelido não era suficiente para descrevê-la. Irreverente e ousado, ele acumulou alcunhas como “Boca do Sul”, “Capitão Escandaloso” e “Ted Terrível”, refletindo sua disposição de desafiar o status quo e falar o que pensava, independentemente das consequências.
Sua jornada para o topo do mundo dos negócios começou após ele assumir a empresa de outdoors de seu pai. Com uma visão aguçada para o futuro, comprou uma emissora de televisão em 1970, transformando-a na base do que se tornaria um vasto e inovador grupo televisivo, mudando para sempre a forma como o conteúdo era consumido.
Turner consolidou-se como uma das figuras mais poderosas da mídia e do entretenimento nos Estados Unidos. Suas redes especializadas em notícias, esportes e filmes clássicos tornaram-se referências globais. Incansável, ele ainda adicionou o estúdio de cinema MGM/UA ao seu portfólio antes de realizar um dos maiores movimentos corporativos da história.
Em 1996, ele fundiu seu Turner Broadcasting System com a gigante Time Warner. Embora tenha chefiado a divisão de redes de TV a cabo da nova empresa e fosse seu principal acionista, Turner teve dificuldades para se adaptar ao rígido sistema corporativo após décadas de autonomia absoluta, acabando por perder o controle de suas redes.
Para além das telas, Turner tornou-se um dos principais ambientalistas do mundo e um dos maiores proprietários de terras nos Estados Unidos. Sua faceta filantrópica era igualmente grandiosa: ele doou a impressionante quantia de US$ 1 bilhão para as Nações Unidas, um gesto que chocou e inspirou o mundo na época.
Com seu bigode fino característico e um brilho travesso no olhar, ele cultivou paixões que iam muito além dos escritórios. Na década de 1970, foi dono do time de beisebol Atlanta Braves e do Atlanta Hawks, da NBA. No mar, comandou seu iate, o Courageous, rumo à vitória na prestigiada America’s Cup.
Sua vida pessoal também foi marcada por figuras intensas, com destaque para a atriz vencedora do Oscar, Jane Fonda, com quem foi casado. Em 1986, Turner criou os Jogos da Boa Vontade, uma competição que visava aliviar as tensões da Guerra Fria através do esporte, em um formato similar às Olimpíadas.
Sempre preocupado com o futuro da humanidade, comprou uma organização de luta livre para gerar conteúdo e, em 2001, cofundou a Iniciativa de Ameaça Nuclear, movido por seus temores de um conflito atômico. A revista Forbes estimava sua fortuna em aproximadamente US$ 2,8 bilhões no momento de sua morte.
Sua autoconfiança era lendária e beirava o folclore. “Se eu tivesse um pouco de humildade, seria perfeito”, disse ele certa vez, em uma frase que resumia sua postura diante da vida. Robert Edward Turner III nasceu em Cincinnati, em 19 de novembro de 1938, e mudou-se para o Sul com a família ainda criança.
Sua formação passou por escolas militares, onde se destacou como campeão de debates e iatismo, moldando o espírito competitivo que o definiria. Matriculou-se na Universidade Brown, mas frustrou o pai ao escolher literatura clássica em vez de administração, mostrando desde cedo sua veia rebelde.
O período universitário terminou de forma conturbada: Turner foi expulso após ser pego com uma namorada em seu quarto, entre outras infrações disciplinares. Ele nunca chegou a se formar, mas provou que seu instinto para os negócios e para a comunicação era superior a qualquer diploma acadêmico.
Turner casou-se e divorciou-se três vezes, deixando cinco filhos. Seu relacionamento mais famoso, com Jane Fonda, durou dez anos e terminou em 2001, mas os dois mantiveram uma relação de respeito mútuo. Sua partida deixa um vácuo no jornalismo mundial, que ele ajudou a transformar em um ciclo de 24 horas.
A CNN, sua criação mais famosa, revolucionou a cobertura de eventos globais, como a Guerra do Golfo, tornando-se o padrão ouro das notícias em tempo real. Sem a ousadia de Ted Turner, o conceito de “breaking news” como conhecemos hoje provavelmente não existiria na televisão mundial.
Seu legado ambiental também é vasto, com projetos de preservação de bisões e vastas áreas de conservação que garantem a sobrevivência de diversas espécies. Turner via a terra não apenas como um ativo financeiro, mas como um recurso precioso que deveria ser protegido para as gerações futuras.
Colegas e competidores costumam descrevê-lo como um furacão que passava pelas salas de reunião, sempre com ideias que pareciam impossíveis na época, mas que ele tornava realidade. A transição da TV local para a transmissão via satélite foi uma de suas apostas mais arriscadas e bem-sucedidas.
Nos últimos anos, mesmo com o avanço da doença neurodegenerativa, Turner manteve-se reservado em suas propriedades, cercado pela natureza que tanto amava. A notícia de seu falecimento gerou uma onda de homenagens de líderes mundiais, jornalistas e celebridades que reconhecem sua importância histórica.
O funeral deverá ser reservado à família, mas espera-se que a Turner Enterprises realize homenagens públicas ao homem que deu voz ao Sul dos Estados Unidos e conectou o mundo através da informação. O “Boca do Sul” cala-se hoje, mas sua voz continuará ecoando em cada tela de notícias do planeta.
Ted Turner será lembrado não apenas como um bilionário, mas como um homem que usou sua fortuna e influência para tentar tornar o mundo um lugar mais informado e preservado. Sua morte marca o fim de uma era romântica e audaciosa do capitalismo midiático global.
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