Nas conversas, pastor Silas Malafaia orienta Bolsonaro a não confrontar Moraes, a ser seletivo com entrevistas e a usar anistia como moeda de negociação.
A Polícia Federal (PF) e o Supremo Tribunal Federal (STF) divulgaram áudios de conversas entre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e o pastor Silas Malafaia. Os registros foram extraídos do celular de Bolsonaro e se referem a diálogos ocorridos após o anúncio do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre o aumento de tarifas a produtos brasileiros.
Malafaia foi alvo de operação da PF na quarta-feira, 20. Ouça abaixo os trechos divulgados no inquérito.
Trechos das conversas
No início, Bolsonaro afirma a Malafaia que não enviou ninguém para negociar com Trump e avalia que o presidente norte-americano não cederia. Em seguida, reclama de “fofocas” que, segundo ele, tentavam afastá-lo de seus próprios filhos.
Malafaia elogia a entrevista do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à CNN Brasil, na qual criticou a taxação imposta pelos EUA. O pastor sustenta que as sanções aplicadas por Trump em outros países têm caráter econômico, mas que, no caso do Brasil, miravam diretamente o ex-presidente.
Segundo Malafaia, Bolsonaro estava “com a faca e o queijo na mão” e deveria usar o tema da anistia como moeda de cobrança. Na sequência, ele critica os discursos do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos e revela ter enviado um áudio ameaçando o parlamentar.
Bolsonaro responde que vinha dialogando com aliados e defende que, se a votação sobre a anistia não fosse iniciada, não haveria negociação sobre o tarifaço. Ele afirma não poder expor essa posição publicamente, mas relata manter conversas de bastidores.
Malafaia, por sua vez, sugere que Bolsonaro critique as medidas de Trump de forma a “tirar de Lula” qualquer protagonismo, reforçando que as tarifas não teriam relação com economia, mas sim com a questão da anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro. O pastor ainda aconselha que o ex-presidente evite confronto direto com o ministro Alexandre de Moraes, do STF.
Outro conselho de Malafaia foi para que Bolsonaro fosse seletivo ao escolher veículos de imprensa e momentos para conceder entrevistas. Ele cita ainda a ida do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) à embaixada para conversar com o ministro Gilmar Mendes, do STF, defendendo que Bolsonaro apoie Tarcísio, mas sem criticar Eduardo em público.
O pastor também recomenda que o ex-presidente grave um vídeo para mobilizar sua base. Bolsonaro, no entanto, reclama de crises constantes de soluços — “a cada três segundos”, segundo ele —, o que o impossibilitaria de gravar.
Em outro momento, Malafaia critica o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, por não ter resolvido “o problema de Fábio”, em provável referência a Fabio Wajngarten, ex-chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência. Ele acusa Valdemar de não cumprir promessa de dar cargo ao aliado e elogia a lealdade de Wajngarten, pedindo que Bolsonaro intervenha.
Outras mensagens
O material apreendido inclui também áudios em que Bolsonaro pede sugestões ao advogado de Trump, Martin de Luca, e orienta um deputado a realizar uma chamada de vídeo durante manifestações de apoio a ele, destacando que, se falasse “qualquer coisa”, poderia ter problemas.
A PF identificou que Bolsonaro pediu a um deputado da Bahia que fizesse uma chamada de vídeo durante ato em Salvador, em 3 de agosto. Para os investigadores, ele teria tentado burlar medida cautelar que o proíbe de usar redes sociais, reforçando a suspeita de um “modus operandi” de comunicação por meio de terceiros.
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