Entidade aponta que substância importada ilegalmente por facção criminosa para adulterar combustíveis pode estar sendo desviada para falsificação de bebidas.

A Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF) divulgou nota neste domingo (28) em que suspeita que o metanol utilizado em bebidas adulteradas seja o mesmo importado ilegalmente pelo PCC para batizar combustíveis.
O Centro de Vigilância Sanitária de SP confirmou duas mortes por intoxicação por metanol — uma na capital e outra em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista. Há ainda dez casos sob investigação de possível consumo de bebidas contaminadas.
🔎 Metanol: da adulteração de combustíveis às bebidas
O metanol é um álcool simples, incolor, inflamável e com odor semelhante ao da bebida alcoólica comum. Na megaoperação contra o crime organizado realizada há um mês, a polícia encontrou combustíveis com até 90% de metanol, quando a ANP só permite até 0,5% em gasolina e etanol.
Segundo a ABCF, o fechamento de distribuidoras e formuladoras ligadas ao crime organizado pode ter levado à revenda clandestina do metanol para destilarias ilegais, gerando “lucros milionários em detrimento da saúde dos consumidores”.
A entidade afirma que nunca recebeu tantas denúncias de bebidas falsificadas como nos últimos dois anos. Uma reunião com o Gaeco do Ministério Público está marcada para terça-feira (30), em busca de novas medidas de combate.
Na nota, a ABCF ressalta que a entrada de facções criminosas no mercado de bebidas falsificadas representa um desafio ainda maior, pela força financeira e rede de distribuição que facilita a chegada dos produtos ilegais a bares e comércios em grandes centros urbanos.
De acordo com o anuário de 2025 da ABCF, o setor de bebidas foi o mais atingido pelo mercado ilegal no último ano, com perdas de R$ 88 bilhões, sendo R$ 29 bilhões em sonegação de impostos e R$ 59 bilhões em perdas diretas das indústrias.
🚢 Importação irregular de metanol
A investigação do Ministério Público de SP mostrou que o PCC importava produtos químicos de forma irregular para adulterar combustíveis. O metanol chegava ao país pelo Porto de Paranaguá (PR), mas era desviado e transportado clandestinamente com documentação fraudada.
Esse transporte ilegal, sem condições mínimas de segurança, colocava em risco motoristas, pedestres e o meio ambiente. Parte desse produto, agora, pode ter migrado para o mercado clandestino de bebidas, segundo a suspeita da ABCF.
⚠️ Riscos à saúde
A ingestão ou até o contato prolongado com metanol pode causar náusea, tontura, cegueira e até a morte. Em pequenas doses já provoca intoxicação grave, além de ser altamente inflamável e perigoso em caso de manuseio incorreto.
O Ministério da Justiça emitiu uma recomendação urgente neste sábado (27) para bares, restaurantes, hotéis, atacados e plataformas de venda online reforçarem a checagem da procedência das bebidas e suspenderem lotes suspeitos.
Na capital paulista, dez casos estão em apuração. Quatro jovens, entre 23 e 27 anos, foram internados após consumir garrafas de gin no início de setembro. A Secretaria Nacional do Consumidor destacou que a cooperação entre governo, empresas e sociedade é fundamental no combate às falsificações.
Entre os sinais de fraude estão preços muito abaixo do mercado, lacres tortos, erros de impressão, odor de solvente e sintomas em clientes como visão turva, náusea ou desmaios. Estabelecimentos devem isolar lotes suspeitos, guardar amostras e acionar a polícia e a Vigilância Sanitária.
Em caso de intoxicação, a recomendação é encaminhar a vítima ao pronto-socorro e ligar para o Disque-Intoxicação (0800 722 6001) da Anvisa. A venda de bebidas adulteradas é crime previsto no artigo 272 do Código Penal, com pena de prisão e multa.
A medida já vale para SP, mas pode ser estendida a outros estados. O Ministério da Justiça afirmou que mantém diálogo com o setor privado e que novas ações serão adotadas para proteger a saúde da população.
📌 Nota da ABCF
Na posição divulgada, a entidade reforçou que desde o fim do Sicobe, sistema de rastreamento da produção de bebidas, o mercado ilegal cresceu, aumentando a sonegação e o risco à saúde. Para a associação, somente com a retomada do controle será possível enfraquecer o crime organizado.
O texto ainda lembra que o TCU considerou ilegal a decisão de 2016 que desativou o Sicobe e determinou sua retomada. A Receita Federal, no entanto, recorreu, e o caso está em análise no STF, sob relatoria do ministro Cristiano Zanin.
🔵 Resposta da Receita Federal
Em nota, a Receita rebateu a ABCF, afirmando ser falsa a correlação entre o fim do Sicobe e o uso de metanol em bebidas adulteradas.
Segundo o órgão, o Sicobe monitorava principalmente refrigerantes e cervejas, e não destilados como vodca e gin, que são controlados por selos fiscais próprios.
A Receita também destacou que tem atuado em operações como Carbono Oculto e Cadeia de Carbono, que miram organizações criminosas ligadas ao comércio ilegal de combustíveis e à importação clandestina de metanol.

