Operação Miragem detalha como administradores do banco de Edir Macedo mascaravam rombos milionários e geravam receitas artificiais para enganar o Banco Central

A Operação Miragem, deflagrada pela Polícia Federal na manhã desta terça-feira (23), jogou luz sobre as entranhas da gestão do Banco Digimais, instituição financeira controlada integralmente pelo bispo Edir Macedo. Com um bloqueio de bens determinado pela Justiça Federal de São Paulo no valor de até R$ 670,3 milhões, a investigação agora se concentra em explicar como funcionava o sofisticado esquema que burlava os órgãos de controle do Sistema Financeiro Nacional.
De acordo com relatórios detalhados do Banco Central do Brasil que basearam a ação da PF, os administradores do Digimais utilizavam manobras contábeis para criar uma falsa sensação de solidez financeira.
Como funcionava o esquema no Banco Digimais?
As fraudes investigadas pela Polícia Federal eram divididas em três pilares principais, que mascaravam a real situação econômica da instituição:
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Manipulação Sistemática de Balanços: O banco alterava seus resultados contábeis e demonstrativos financeiros de forma planejada. O objetivo era esconder prejuízos acumulados e aparentar solvência (capacidade de pagar as dívidas) perante o Banco Central;
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Supervalorização de Ativos e Receitas Artificiais: A investigação aponta que a prática permitiu inflar o valor dos bens e carteiras do banco, gerando artificialmente centenas de milhões de reais em receitas que, na realidade, não existiam no caixa;
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Operações de Crédito Vedadas: A PF descobriu a liberação de empréstimos e movimentações financeiras supostamente ilegais realizadas em benefício direto da própria empresa controladora do banco, uma prática expressamente proibida pela legislação para evitar o esvaziamento de patrimônio de instituições financeiras.
Gestão sob os holofotes e o fator Aldemir Bendine
O avanço das investigações coloca em xeque a atual governança da instituição, que passou por mudanças profundas recentemente. Em dezembro de 2025, o executivo Aldemir Bendine — conhecido por ter presidido a Petrobras e o Banco do Brasil — assumiu a presidência executiva (CEO) do Digimais após receber a homologação do Banco Central. A chegada de Bendine tinha como meta justamente reestruturar o banco e limpar os balanços, mas a PF agora apura se as irregularidades contábeis vinham se arrastando ou se intensificaram nos últimos meses de gestão.
Além disso, a Polícia Federal classificou as práticas adotadas pelo Banco Digimais como “temerárias” e traçou um paralelo direto com o histórico de investigações do extinto Banco Master (antigo Banco Máxima), que no passado também enfrentou severas crises de liquidez e reestruturações forçadas após auditorias apontarem inconsistências e irregularidades em suas operações.
Impacto na venda para o BTG Pactual e risco de colapso
A tempestade política e jurídica provocada pela Operação Miragem cai como uma bomba sobre os negócios recentes do bispo Edir Macedo. Em abril deste ano de 2026, o banco BTG Pactual havia anunciado a assinatura de um acordo vinculante para adquirir o controle acionário do Digimais. Embora o valor da transação não tenha sido divulgado, analistas de mercado apontam que a operação da PF pode paralisar o processo de auditoria de compra (due diligence) ou fazer com que o BTG acione cláusulas de saída por quebra de garantias.
Essa incerteza agrava uma situação que já era considerada crítica pelas agências globais de análise. Recentemente, a Fitch Ratings rebaixou a nota de crédito do Digimais para “CCC(bra)”, o que no jargão financeiro significa que a instituição possui um risco iminente de calote ou incapacidade de honrar seus compromissos com investidores e correntistas. Sem o aporte do BTG e com os bens bloqueados pela Justiça, o banco enfrenta o fantasma de uma intervenção regulatória.
Quais crimes os investigados podem responder?
Mais de 50 policiais federais seguem cumprindo os mandados em São Paulo nesta manhã. Os alvos da operação — que incluem 10 empresas, 8 pessoas físicas e o sigilo bancário e fiscal quebrado de Edir Macedo — poderão responder com base na Lei nº 7.492/1986 (Lei dos Crimes do Colarinho Branco) por:
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Gestão fraudulenta de instituição financeira;
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Inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis oficiais;
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Falsificação de informações inseridas em sistemas oficiais de registro do órgão regulador.
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