Suspeita é de ataque hacker à plataforma entre a noite de sexta e a madrugada de sábado; mensagem com a palavra “misantropia”, que significa ódio à humanidade, foi enviada a celulares de diversas partes do país

Uma investida cibernética criminosa disparou cerca de 10 alertas falsos por meio do sistema oficial da Defesa Civil, gerando pânico e afetando milhões de brasileiros em diversas regiões. O governo federal confirmou a ocorrência na manhã deste sábado (20/06), apontando que a estrutura nacional de comunicação de emergências foi invadida durante a madrugada. A Polícia Federal (PF) assumiu o caso imediatamente para rastrear a origem da invasão.
O incidente de segurança digital começou no final da noite de sexta-feira e se estendeu pela madrugada, quando os celulares da população passaram a emitir sinais sonoros de desastre. As telas exibiam uma notificação de “Alerta Extremo” com a palavra “misantropia”, termo associado ao sentimento de desprezo ou ódio pela humanidade. Dependendo do modelo e do sistema operacional do smartphone, o texto aparecia com a grafia modificada para “misantropi4”.
De acordo com informações da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, ligada ao Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional, pelo menos 10 disparos fraudulentos foram computados até o bloqueio da rede. Embora o impacto tenha atingido milhões de cidadãos de forma simultânea, o governo ponderou que ainda faz o levantamento definitivo do total de atingidos. Os dados foram detalhados pelo secretário nacional da pasta, Wolnei Wolff, em coletiva de imprensa realizada hoje.
Os relatórios técnicos indicam que o estado do Paraná foi o ponto de partida do ataque na noite anterior. Pouco tempo depois, o sinal se espalhou e alcançou moradores de São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul e Acre. Para estancar a crise e impedir novas transmissions em massa, o Ministério decidiu desligar preventivamente toda a plataforma por volta de 1h30 da manhã.
A principal linha de apuração do Governo Federal trabalha com a certeza de um ataque hacker coordenado e de motivação criminosa. O acionamento do nível máximo de emergência do país — usado apenas em casos de calamidades reais — acendeu o sinal de alerta nas agências de inteligência. A escolha de uma palavra enigmática e totalmente fora dos padrões institucionais evidenciou a ação de sabotagem no sistema.
— Desde o final do dia de ontem e a madrugada de hoje, o sistema sofreu um ataque, tudo indica de hacker, é um desserviço à nação. Prontamente, a TI tirou o sistema do ar, mas as consequências estão aí, foram muitos alertas, entre 9 e 10 alertas — desabafou o secretário Wolnei Wolff durante o pronunciamento.
O secretário explicou que a maior parte das notificações falsas (nove delas) ocorreu via tecnologia Cell Broadcast (Transmissão de Célula). Esse sistema moderno envia dados diretamente para as antenas de telefonia móvel de longo alcance, impactando aparelhos compatíveis com redes 4G ou 5G fabricados a partir de 2020. Apenas uma das mensagens foi distribuída pelo método antigo de SMS, que depende do cadastro prévio do terminal do usuário.
A equipe do ministério informou que precisar a quantidade exata de dispositivos que tocaram na madrugada é uma tarefa complexa devido à pulverização geográfica do ataque. Wolff pontuou que as credenciais de operação do sistema funcionam de forma descentralizada por estado. Sob condições normais, uma senha emitida para uma Defesa Civil estadual específica jamais deveria ter autorização de segurança para disparar alertas em outras regiões federativas.
— Cada alerta deveria ser para um Estado. Jamais era para um funcionário conseguir fazer um alerta para outro estado — detalhou Wolff ao explicar a dinâmica da plataforma. — Não sabemos se foi uma ou mais pessoas que deram os alertas.
Vale destacar que a classificação de “Alerta Extremo” possui uso restrito por lei, sendo ativada apenas diante de ameaças reais e severas à vida, como inundações repentinas, rupturas de barragens ou tornados. Como o texto transmitido pelos invasores trazia apenas provocações conceituais, as autoridades locais perceberam a quebra de segurança e o rastro de fraude nos servidores centrais de forma imediata.
O desligamento total da infraestrutura digital às 1h30 serviu como barreira de contenção enquanto os técnicos de TI limpam o ambiente de rede e restabelecem as travas de proteção. O sistema nacional permanecerá fora do ar até que o governo tenha plena convicção de que novas invasões externas foram anuladas. Peritos da Polícia Federal trabalhos no cruzamento de dados para identificar os IPs e as chaves utilizadas no crime.
— Investigações serão capazes de fazer avaliação, entender como aconteceu, como uma pessoa fora do sistema conseguiu acessar — frisou o chefe da Secretaria Nacional, destacando o papel da perícia técnica.
Os levantamentos preliminares levados ao Ministério apontam que nenhuma conta legítima ou computador de funcionários da Defesa Civil participou diretamente da digitação das mensagens, reforçando a tese de um ataque externo orquestrado.
— O que parece ter ocorrido é que se cadastraram no sistema e fizeram alerta a partir de Curitiba (PR). A gente bloqueou. Depois outra pessoa entrou com outro usuário e disparou outro alerta. Com a entrada da PF nessas investigações, a gente tende a evoluir para ter informações mais completas.
Ainda não há um cronograma oficial para o restabelecimento do canal de segurança, mas a equipe de tecnologia do governo federal trata a resolução do problema como prioridade máxima. Wolnei Wolff admitiu que episódios dessa magnitude prejudicam a confiança da população na ferramenta de salvamento, mas ressaltou que uma nova versão do software, com camadas extras de proteção e criptografia, já estava sendo desenhada desde o início do ano.
A nova atualização de segurança vai reestruturar completamente a política de concessão de acessos e checagem de identidade dos operadores. O governo usará os relatórios e as vulnerabilidades encontradas pela Polícia Federal neste episódio para blindar de vez a plataforma contra futuras investidas de criminosos virtuais nas redes de comunicação móvel.
— Temos que entender como aconteceu esse ataque, ver se o problema está atendido por esse desenvolvimento que já está em curso. E no menor tempo possível, é uma prioridade, colocar no ar essa nova versão que garanta mais segurança ao sistema — assegurou Wolff. Os engenheiros passaram a madrugada em claro mapeando a invasão.
O susto coordenado mobilizou os governos estaduais nas últimas horas. Em São Paulo, o comando da Defesa Civil emitiu nota oficial garantindo que suas equipes não participaram do disparo e tranquilizou a população lembrando que o tempo seguia firme na região. O Palácio dos Bandeirantes informou que notificou a Anatel para cobrar explicações técnicas das operadoras de telefonia sobre a brecha.
No Rio de Janeiro, a direção estadual da Defesa Civil seguiu a mesma linha, esclarecendo que seus sistemas locais operavam normalmente e que o disparo indevido ocorreu na centralizadora nacional. O órgão fluminense descartou qualquer alerta de temporal ou ressaca marítima que justificasse o barulho nos celulares dos moradores.
O mesmo cenário de esclarecimento emergencial ocorreu no Paraná, o primeiro estado a registrar a atividade hacker. O governo paranaense agiu rápido para desmentir o conteúdo do alerta nas redes sociais, confirmando que os radares meteorológicos não apontavam riscos de fenômenos climáticos extremos para as cidades do estado durante o fim de semana.
Desenvolvido para salvar vidas e agilizar evacuações, o Defesa Civil Alerta opera enviando pulsos de rádio em massa via Cell Broadcast para celulares conectados às torres de telefonia de áreas perigosas. Por ter caráter vital, a mensagem fura bloqueios de privacidade, emite som no volume máximo e congela as funções do aparelho para garantir que o cidadão leia as orientações de segurança a tempo.
O que significa ‘misantropia’?
Misantropia é o termo conceitual que define o sentimento de profunda desconfiança, antipatia, isolamento ou aversão generalizada em relação à raça humana e à convivência social. A palavra liderou o topo dos assuntos mais pesquisados no país após ser utilizada de forma irônica no texto do falso alerta de emergência nacional.
De acordo com as definições clássicas da psicologia e da literatura, a misantropia traduz a postura de indivíduos que adotam uma visão severamente pessimista sobre a moral e as intenções humanas. O comportamento é frequentemente associado a pessoas que optam por viver afastadas das rotinas coletivas, preferindo o recolimento ao convívio social diário.
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