Papa Francisco optou por um funeral simples, mas cercado de fortes significados litúrgicos e espirituais
Uma despedida simples, mas carregada de simbolismo
O Vaticano divulgou nesta terça-feira, 22, as primeiras imagens do corpo do papa Francisco em seu caixão. Embora o pontífice tenha solicitado um ritual fúnebre modesto, elementos litúrgicos clássicos da Igreja Católica foram mantidos — cada um com profundo significado. O corpo do líder católico está sendo velado na capela da Casa Santa Marta, onde ele residiu por mais de uma década. O funeral foi marcado para o sábado, 26.
Francisco morreu na segunda-feira, 21, aos 88 anos, após sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) e colapso cardiocirculatório. Ele estava em recuperação de uma pneumonia dupla, que o deixou internado por cinco semanas. Mesmo diante da fragilidade, sua última aparição pública havia sido marcada por força e serenidade.
Segundo o professor Dalton Luiz de Paula Ramos, da Faculdade de Odontologia da USP e membro da Pontifícia Academia Pro Vita por 20 anos, os símbolos litúrgicos são mais que ornamentos — são sinais que remetem a vivências espirituais profundas. “Os sinais, os símbolos, remetem a uma realidade, lembrando algo já experimentado”, explicou.
A simbologia da veste vermelha e do anel de bispo
Entre os símbolos mais visíveis está a casula vermelha utilizada por Francisco. Para os católicos, o vermelho representa o sacrifício de Cristo e o amor redentor. “O vermelho remete ao sangue derramado por amor, é o amor que redime”, afirma Ramos.
No dedo anular da mão direita, Francisco carrega seu anel de prata original, usado desde a época em que era bispo em Buenos Aires. Esse gesto revela sua humildade e apego às origens. O tradicional “anel do pescador”, símbolo do poder papal, será quebrado — um ato que representa o fim de sua autoridade como chefe da Igreja.
Outro acessório marcante é o terço de Nossa Senhora, entrelaçado em seus dedos. Francisco era profundamente devoto de Maria. Durante sua visita ao Brasil em 2013, no Santuário de Aparecida, referiu-se à santa como “minha mãe”. Essa devoção guiou sua decisão de ser enterrado na Basílica de Santa Maria Maggiore, onde frequentemente rezava antes e depois de viagens.

Mitra, estola e caixão: a tradição mantida
A cabeça de Francisco está coberta com a mitra episcopal, chapéu usado em celebrações solenes. Seu formato triangular, apontando para o céu, simboliza a autoridade espiritual concedida por Deus.
Nos ombros, ele traz a estola branca — ou palium — confeccionada com lã de cordeiros da Abadia de Três Fontes, em Roma. O item remete à missão pastoral e ao serviço aos fiéis. Como manda a tradição, ela foi tecida pelas freiras de clausura de Santa Cecília, no bairro romano de Trastevere.
O corpo repousa em um caixão de madeira e zinco, diferente dos três caixões utilizados por pontífices anteriores. A escolha reflete seu desejo por simplicidade, coerente com toda a sua trajetória.
Além disso, Francisco não foi embalsamado. O Vaticano optou apenas por injeções para retardar a decomposição, preservando o corpo para o velório e o sepultamento com dignidade, mas sem excessos.

A guarda suíça e a memória viva de Francisco
Uma das imagens divulgadas mostra um membro da guarda suíça ao lado do caixão. A guarda é responsável pela segurança do papa há mais de 500 anos e fazia parte do cotidiano do pontífice. Segundo o professor Dalton, os guardas frequentemente tinham de “correr atrás” de Francisco — o papa costumava improvisar rotas e quebrar protocolos para se aproximar do povo.
Ele preferia cumprimentar os soldados com um aperto de mão, desafiando a formalidade da continência. Essas atitudes resumem o estilo pastoral de Francisco: próximo, humano e contrário aos excessos do cerimonialismo.
Com o funeral programado para o próximo sábado, o mundo se despede de um papa que fez história não apenas por suas ações, mas também pelos símbolos que carregava — agora eternizados em sua despedida.

