Operação cumpre mandados de prisão e busca contra o vereador da capital Senival Moura, do PT, controlador da Transunião, e dirigentes da empresa.
Por Nitro News Brasil — São Paulo 25/06/2026 11h22
A Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) deflagraram na manhã desta quarta-feira (24) a Operação Última Parada, contra um esquema de lavagem de dinheiro da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) no transporte público. Os agentes cumprem cinco mandados de prisão temporária e 104 de busca e apreensão.
Os três presos são o vereador da capital Senival Moura, do PT, Jair Ramos de Freitas (“Cachorrão”), diretor informal da empresa, e Devanil de Souza Nascimento (“Sapo”), motorista e homem de confiança do vereador.
Abaixo, veja quem são os demais alvos dos mandados de prisão:
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Lourival Monário (“Orelha”): atual presidente da Transunião, acusado de ser nomeado pelo PCC para garantir o escoamento de recursos ilícitos;
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Leonel Moreira Martins (“Cabeça Branca”): supervisor operacional que atuava como o interlocutor direto do PCC dentro da empresa, transmitindo ordens da facção.
Números da operação:
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Bloqueio de ativos: Impedimento de circulação de 117 veículos e 3 embarcações;
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Patrimônio: Sequestro de 21 imóveis pertencentes aos investigados;
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Contas bancárias: Bloqueio judicial de R$ 194.457.851,90 em contas dos alvos.
Os investigados são acusados de organização criminosa, lavagem de dinheiro e fraudes em licitações públicas.

Com a operação, a diretoria da Transunião foi afastada e a Prefeitura de São Paulo, comunicada para que sejam tomadas as medidas administrativas cabíveis.
Em nota, a Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte (SMT) e a SPTrans informam que “a operação dos ônibus da empresa Transunião segue funcionando, com a frota atendendo normalmente as linhas sob sua responsabilidade e sem prejuízo ao atendimento da população. A Administração Municipal aguarda a notificação oficial da decisão judicial para avaliar seus termos e definir as providências necessárias a partir de agora”.
O prefeito Ricardo Nunes (MDB) informou estar acompanhando os desdobramentos da operação “ao mesmo tempo em que temos toda a atenção para que o serviço funcione plenamente, o que tem ocorrido normalmente desde as primeiras horas da manhã”.
A intenção de Nunes é fazer a intervenção na Transunião. O prefeito ponderou, no entanto, que precisa saber dos detalhes da decisão do juiz que ordenou a operação desta quinta: “Quero fazer a intervenção, só preciso tomar conhecimento do despacho do juiz”.
“Gostaria de lembrar que assinei dois decretos em 2024 para romper contratos com uma empresa de ônibus que teria relação com o crime organizado. Nossa gestão mantém o compromisso de oferecer o melhor serviço para os 7 milhões de passageiros diariamente na cidade. As medidas cabíveis em relação à empresa Transunião serão tomadas assim que a administração for notificada pelos órgãos competentes”, completou.
Segundo os investigadores, Lourival está em Roma, na Itália. As autoridades vão pedir que o nome dele seja incluído na Difusão Vermelha, a lista de procurados da Interpol.
Os mandados estão sendo cumpridos em endereços da cidade de São Paulo, da região metropolitana e do município de Extrema (MG). A ação é conduzida pelo Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MP.
De acordo com dados do SPUrbanuss, o sindicato das empresas de ônibus da capital, a Transunião opera 51 linhas de ônibus e transporta 389 mil passageiros por dia, atuando principalmente na Zona Leste da capital paulista.
Para cortar a influência dos investigados, a Justiça determinou o afastamento imediato de todos os atuais diretores e administradores da Transunião. Como o transporte de passageiros é um serviço essencial e não pode parar, a SPTrans foi notificada. Agora, o município precisa garantir que a frota continue rodando, seja decretando uma intervenção direta na empresa ou repassando as linhas da Transunião para outras viações da cidade.
Morte de ex-presidente e o início da investigação

O inquérito que desencadeou a ação desta quinta começou a partir da investigação do assassinato de Adauto Soares Jorge, antigo presidente da Transunião, executado em 2020.
Documentos manuscritos conhecidos como “salves” do PCC revelaram que Adauto e o vereador Senival de Moura – apontado como o verdadeiro controlador da empresa – haviam sido condenados à morte por supostos desvios de valores da organização criminosa.
“A facção teria descoberto, então, que Adauto desviava dinheiro da empresa para subsidiar uma espécie de ‘caixa dois’ para as eleições de 2020, privilegiando diretamente Senival em sua campanha à reeleição como vereador de São Paulo”, diz trecho da manifestação do MP.
As investigações apontam que Senival concordou com a execução de seu braço-direito e acabou sendo “perdoado” em razão de sua influência política e capacidade de ressarcir o prejuízo financeiro causado à facção.
Após o crime, o PCC teria nomeado Lourival de França Monário (vulgo “Orelha” ou “Lori”) e Jair Ramos de Freitas (vulgo “Cachorrão”) para assumir os cargos de presidente e diretor da Transunião e garantir o fluxo financeiro para a facção. Jair Ramos de Freitas é, inclusive, apontado pela polícia como o executor dos disparos que mataram Adauto.
Evidências reunidas pelas autoridades a partir do crime demonstram que a viação — que apenas no ano de 2025 recebeu mais de R$ 300 milhões do sistema de transportes paulistano — vinha sendo sistematicamente utilizada como uma engrenagem de lavagem de dinheiro do crime organizado.
Como funcionava o esquema
De acordo com o MP-SP e a Polícia Civil, a Transunião contava com a existência de um núcleo paralelo, que tomava as decisões operacionais da empresa e autorizava a transferência de grandes valores para criminosos ligados ao PCC.
A fraude atingiu até mesmo a constituição da empresa. A investigação aponta que a mudança societária da companhia teve origem criminosa: o capital social saltou de pouco mais de R$ 100 mil para mais de R$ 50 milhões sem que a origem desse dinheiro ficasse comprovada.
Essa elevação fraudulenta do capital social permitiu à Transunião participar e vencer licitações da Prefeitura de São Paulo para operar linhas do transporte público.
Bloqueio milionário e bens apreendidos
A pedido da polícia e do MP-SP, a Justiça determinou o sequestro de uma fortuna ligada aos investigados e à companhia. A lista de bens bloqueados inclui:
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R$ 194 milhões em contas bancárias
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117 veículos e 3 embarcações
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21 bens imóveis
Conexões com a máfia italiana
Os investigadores também constataram que o esquema usado pela Transunião tem ligação com outras grandes investigações, como a Carbono Oculto, a Vérnix e a Operação Mafiusi. Esta última, conduzida pela Polícia Federal no Paraná, focou no tráfico internacional de drogas e expôs a ligação direta entre o PCC e a máfia italiana ‘Ndrangheta.
A ofensiva consolida as ações recentes contra a infiltração de facções nos contratos públicos da capital. Em 2024, o Gaeco deflagrou a Operação Fim da Linha, que desarticulou dois grupos suspeitos de lavar dinheiro de tráfico através da Upbus e da Transwolff. Juntas, essas empresas transportavam cerca de 700 mil passageiros por dia e, apenas em 2023, receberam mais de R$ 800 milhões em remuneração da prefeitura.
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